kaju

Jardineiro

Ela voou pra longe e nunca mais voltou. Minha lua mais preciosa, o canto de todos os meus dias. Lembro da chuva e do pedacinho de você que eu coloquei no beiral da minha janela pra ver se um dia você encontraria o caminho de casa. E aqui começou.

Eu nunca mais fui o mesmo, o que é de se esperar. A perda de alguém tão amado perturba algo dentro da gente. Ela mostra como tudo o que temos pode não estar mais aqui em um instante. A efemeridade da vida e tudo o que há nela. Um simples erro, uma janela aberta, pode levar um pedaço do meu coração embora.

E então eu me tornei um jardineiro, podando daqui toda flor que ousasse ter espinhos, toda flor que pudesse me machucar. Porque eu tinha medo, ainda tenho e sempre tive. Temia ser machucado, espetado por um espinho, ainda que minhas rosas fossem tão bonitas. E assim, meu jardim lentamente foi perdendo a vida, perdendo a cor, perdendo tudo que tornava ele um jardim.

Algumas flores pude recuperar na jornada até aqui, outras não. Elas deixaram apenas cicatrizes, ainda doloridas, de todos os arranhões que sofri tentando arrancá-las pelas raízes com mãos nuas. Nunca esqueço, e me magoa lembrar o quanto ela me implorou pra não ir embora, o quanto ela pediu pra que eu permanecesse na sua vida, que não a arrancasse do meu jardim. Mas eu estava irredutível. Eu decidira que em vez de jardineiro, havia me tornado lenhador.

Quando eu me dei conta de que o inverno chegava e eu havia lenhado meu jardim, minha mata e tudo que poderia servir de calor, eu me vi de mãos atadas, fadado a sofrer com a frieza de um inverno duro e sem flores pra admirar, sem lenha pra me aquecer. E quem sofre, quer logo uma solução, uma fórmula mágica que dê o ponto final naquela moléstia. E nela eu encontrei, na bruxa que, com seu encanto, me convenceu que podia fazer fogo e me aquecer.

Ela me convenceu de que eu não era ninguém, um pobre jardineiro incapaz de cuidar do seu jardim. Só que, ao mesmo tempo, ela me mostrou a magia, me deu forças pra sobreviver ao pior do inverno. Eis que eu me agigantei, mas perante ela, gigantes são uma ameaça, uma aberração.

Então fugi, em busca de um novo jardim para cultivar. Não vou conseguir cultivar as flores que outrora perdi, nem as que pelas raízes arranquei tão ingenuamente, e essa dor eu carrego comigo todos os dias. Todos os dias vou lembrar dos sorrisos doces, dos piados pela manhã, dos presentes tão amorosos e de toda a alegria que ficou no passado. Só que eu encontrei novas flores, que são belas à sua própria maneira e consigo com elas sorrir, cantar e apreciar o som da chuva outra vez.

A primavera chegou e fez florescer em mim não apenas um novo jardim, mas também um novo jardineiro.

#poesia